sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Igreja, ouça o que o Espírito lhe diz!


"Seguramente o Espírito Santo é a pessoa da Trindade que menos atenção tem recebido no curso da história da Igreja, bem como por parte dos teólogos nestes dois mil anos de reflexão teológica". (Caio Fábio, 1996, p.11). Com as palavras supracitadas, o autor desta valiosíssima obra começa o primeiro dos seus dez capítulos, com o fito de responder a mais básica das perguntas que a Igreja deve fazer acerca do Seu Criador: "Quem é o Espírito Santo"?
Para responder a tão óbvia e, mais do que nunca, necessária pergunta, Caio Fábio desce às minúcias do relacionamento dessa Pessoa com Jesus, com as Escrituras, com o mundo, com o crente e com a Igreja, mostrando claramente que o Espírito Santo é Deus e, como é obvio, Ele faz da Igreja que criara o "Seu grande santuário".Nos demais capítulos, o autor trata do modo como age o Espírito Santo, da plenitude do Espírito Santo, do batismo com o Espírito Santo, da contemporaneidade dos dons, dos obstáculos à sua ação no Corpo de Cristo e do fluxo e refluxo abençoador do Espírito Santo no homem interior.
A ignorância da Igreja sobre o Espírito é semelhante àquela que uma criança teria se não soubesse que precisa de oxigênio para respirar e, voluntariamente, obstruísse o próprio órgão da respiração, razão porque John Stott, certa vez, escreveu: "Assim como um corpo sem respiração é um cadáver, a igreja sem o Espírito é morta"!
Eu recomendo vivamente a leitura desse livro à igreja de Cristo no Brasil. Que a Igreja ouça o que o Espírito lhe diz!









quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

REDENÇÃO E CRIAÇÃO NA IGREJA DO CAMINHO

A redenção precede a criação também no que tange à dinâmica de edificação espiritual do Corpo e de cada um dos seus membros. É o que veremos a seguir.


Paulo, o apóstolo dos gentios, certa vez, teve um “desentendimento exacerbado” com Barnabé (Atos 15:37-39;BKJ) acerca de João Marcos que os havia abandonado na Panfília (At 13:13). E se separaram.(At15:39).

Esta foi uma boa oportunidade para se criar uma divisão no Corpo de Cristo – a Igreja. A versão humana, autoritária e hierárquica da Igreja de Cristo não perderia, por certo, tal oportunidade. Então teríamos, de um lado, a igreja dos barnabitas e, por outro, a igreja paulina.


A primeira defendendo a tese segundo a qual a igreja é, pri-mordialmente, redentora, pois Marcos deveria ter uma segunda chance pelo erro cometido. Já a segunda, por sua vez, defenderia a tese segundo a qual, a igreja deveria, antes de tudo, conservar-se limpa, afastando os que cometem a ousadia de “não ir sempre” com os que adiante seguem no Caminho.


A primeira igreja, enfatizando o perdão e a graça, seria acusada pela segunda, de pregar somente “as rosas, esquecendo dos “espinhos” da vida cristã. Poderia ainda ser acusada de pregar somente que “Deus é amor”, mas esquecendo verdade sublime de que “Deus é justo”!


De fato, ambos são argumentos irrefutáveis e fundamentados pela Bíblia, sendo impossível, numa primeira impressão, não se criar duas denominações cristãs e bíblicas.


Aparentemente esses dois princípios de igual valor estão em conflito indissolúvel, cabendo a cada grupo acolher com diligência aquele que lhe parece ser o mais correto. Diante dessa questão, pode-se concluir que as denominações são males necessários; sendo impossível evitá-las e inútil tentar provar o contrário. Esta é a conclusão do homem religioso, apegado a tradições e avesso a reflexões mais cristocêntricas.


Eu, todavia, prefiro fazer a leitura dessa passagem não a partir de critérios subjetivos ou extrínsecos ao Evangelho, mas, sobretudo, a partir do “método-Jesus” de interpretação das Escrituras. A partir desse método, Jesus é o supremo princípio do qual decorre todos os outros em perfeita coerência e aplicabilidade, possibilitando a interpretação conforme a Palavra de Deus.


Jesus é a Palavra de Deus e esta me assegura que não há contradições absolutas e insuperáveis no Caminho que ele preparou de antemão para o crente e para a Sua Igreja. Este método me assegura que a Igreja não tem rótulos, nem rotula ninguém, mas apresenta marcas ou sinais que nos ensinam, dos quais destaco dois:


1. A Igreja tem natureza redentora – ao contrário da igreja-religião, a Igreja do Caminho, preferiu receber Marcos e Barnabé em sua comunhão, mesmo que a liberdade de ir e de não ir que tinha Marcos, pareceu ao grande Paulo, um erro que inviabilizara a vocação missionária daquele, acolhendo-o pelo companheirismo de Barnabé e pelo abraço curador da Igreja do Caminho;

A prova de que Barnabé estava certo e Paulo errado, se dera muitos anos depois quando, em II Tim. 4:11 vemos o mesmo Paulo ditar algo impensável, para alguns, ao seu amanuense: “Toma a Marcos e traze-o contigo, porque ele é útil para ajudar-me”.


Imagino o amanuense dando uma risadinha e Paulo pensando: É isso mesmo. Eu estava errado e Barnabé, certo; sendo melhor cristão que eu naquela ocasião. E, talvez, uma lágrima lhe escorrera no rosto!


2. A Igreja tem natureza criadora – ao contrário da Igreja-religião que se apega à rigidez de suas doutrinas e estruturas resistentes aos ventos de mudança que o Espírito Santo traz, a Igreja do Caminho se mantém obediente e criadora, pois Ele disse: “Separai-me a Saulo e a Barnabé para a obra à qual os chamei” (At. 13:2). Todo o Caminho da Graça e demais movimentos cristãos da Igreja na história ocidental dependeu daquela hora, pois a Igreja deu à Europa e, depois, a nós; dois grandes homens, mantendo-os unidos num forte companheirismo.


Quando a Igreja do Caminho ouve o Espírito Santo, ela se torna redentora e criadora e surgem, não novas denominações, mas novos movimentos cristãos.

O CAMINHO não é excomunhão nem denominação, o Caminho é Cristo!

sábado, 8 de outubro de 2011

A IGREJA DO CAMINHO E A IGREJA DA RELIGIÃO

Apesar de ser uma coletividade de seres humanos com todas as implicações disso (inacabada, condicionada, falível, etc.), a Igreja do Caminho é a que agrada a Deus e é diferente da Igreja da religião.

            Deus criou a Igreja pelo Seu Espírito, o qual é Espírito de comunhão, de cooperação, de associação, de comunidade, de comum – unidade

Deus é um Deus Triuno, não um Deus indivíduo. Assim também o Caminho não é um caminho solitário, mas o caminho das livres associações, do companheirismo, da vida comunitária, onde a dimensão individual e a dimensão coletiva é respeitada, assim como o Pai é livre em relação ao Filho e ao Espírito e vice-versa, mas estão em perfeita triunidade!

Nem uma mente humana poderia imaginar algo melhor para a vida social do que a IGREJA que o homem Jesus sonhou para nós.

A assembleia ou o ajuntamento mais cristão da história foi a Igreja dos seguidores do Caminho que surgiu em Antioquia.
  
Ela surgiu em Antioquia porque não poderia ter surgido em Jerusalém.
Foi a igreja de Antioquia que nos deu Paulo, ao passo que a Igreja de Jerusalém nos deu a Pedro.

Observe que “em Antioquia os discípulos foram primeiramente chamados de cristãos”.(At 11:26).

Eles não foram chamados pelos seus nomes individuais, mas  por causa das relações que estabeleciam entre si carregadadas das características de Cristo, foram assim re-conhecidos como semelhantes a Cristo.
Tal nome não lhes fora dado como um rótulo, pois naquela época era comum nomear as pessoas conforme o caráter e características e se estas desapareciam ou mudavam, mudava-se também o nome.
Foi a Igreja em Antioquia que foi chamada coletivamente de "cristãos", porque eles tinham características comuns que sobressaíram sobre suas características individuais. 
Essa característica produzida pelo grupo advinha diretamente de Jesus, provando que era o Senhor o Caráter a quem seguiam, não advindo de manuais, fórmulas ou modas comportamentais na vestimenta, na alimentação ou na prática de rituais litúrgicos ocorridos dentro do Templo, ou mesmo na maneira de falar. Pelo contrário, eles eram semelhantes a Cristo, não, uns aos outros.
Comparando a Igreja de Antioquia e a Igreja de Jerusalém, podemos afirmar que:
1. A Igreja de Jerusalém  era a Igreja da religião - o Caminho cristão nunca chegou a realizar-se em Jerusalém, por causa do apego dessa igreja à religião. Por isso, ela produziu a Pedro e sua ética de inclusão excludente.
Se não, vejamos:
Apesar de os cristãos judeus serem profundamente exclusivistas, pregando apenas para si mesmos, Pedro se relacionava com gentios, mas tratando-os como cristãos de segunda classe. Até aceitava partilhar o pão com gentios, mas se alguém de Jerusalém estivesse presente, ele perdia a fome imediatamente. Pedro nunca se tornou um evangelista para o mundo, pois preferiu ficar adstrito aos limites culturais de seu racismo, do qual nunca se libertou;

2. A igreja de Antioquia era a Igreja do Caminho - O Caminho cristão encontrou nela espaço para sua singularidade, pois não era judaísmo, nem uma seita derivada desse, mas o próprio e único Evangelho da Graça anunciado por Paulo aos gentios, sem inibições ou barganhas, o que permitiu que ele fosse chamado "apóstolo dos gentios".
As raízes da Igreja que caminha segundo a fé de que Só Cristo salva, deita suas raízes em Antioquia, donde saiu Paulo para ganhar a Europa, não em Jerusalém.
O Caminho não é inclusão excludente, o Caminho é Cristo!



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O CAMINHO É MAIOR QUE A FÉ

O CAMINHO é maior que a fé. Engana-se quem apega-se à fé como a um amuleto, a uma varinha mágica, ou a uma força capaz de chamar à existência, as coisas que não existem. Sem fé é impossível agradar a Deus, mas sem Deus, de que vale as possíveis vantagens da fé? A fé é um dom de Deus, mas só o é porque JESUS é o maior  presente, o DOM inefável capaz de gerar fé no coração humano: fé em Cristo.

Aquele que não enxerga esta ululante obviedade precisa rever as convicções e certezas das coisas que afirma ver e esperar em nome da fé. A fé não é Deus, não é Cristo, mas me faz crer e me relacionar com Deus -Pai, em Cristo.


A fé em Cristo nos leva a considerá-lo como o único que nos pode salvar, sendo a fé Nele um meio, mas Ele, o fim. Quando tenho fé na minha fé e lhe atribuo características que somente a Cristo pertencem, acabo me decepcionando com minhas "convicções" e "certezas" e termino por me ver caído em aflição e desespero, ainda que a todos pareça que sou superpoderoso, cheio de fé e razão.

Ainda que tenhamos removido montanhas de um lugar para outro pela nossa fé, pode ser que não tenhamos feito nada mais além de causar um desequilíbrio ecológico e só, mas isto não prova que temos fé em Cristo ou que por Ele realizamos grandes sinais ou conquistamos coisas.

Pelo contrário, muitas vezes, vemos pessoas dizendo que recebeu algo que queria sem precisar, ou que realmente precisava e queria, mas não conseguem admitir que o recebeu pela fé num Deus que só quer nos dar o melhor. Antes dizem que alcançou o desejado, porque desafiou Deus, fez uma promessa e cumpriu, se comprometeu financeiramente com um jogo de barganhas e obteve, por isso, o resultado positivo.

Entretanto, a fé  que Jesus deseja que seus discípulos desenvolvam é a que sabe que, no mundo se terá aflição, mas JESUS é maior que o mundo. Esta é a fé que nos faz saber que Jesus é maior que a fé.

Se não for assim, nos gabaremos de uma fé que só serve para trocar coisas com Deus. Quem tem fé a tem com simplicidade e sabedoria, sem colocá-la num pedestal, sem promover o show da fé, absolutizando-a, tornando-a, um ídolo.

"A fé sem obras é morta",  mas  obras que de antemão foram preparadas para que andássemos nelas, não as obras particulares que aumentam nosso patrimônio!

O que prova que temos fé em Cristo é esta própria fé atuando através do amor, o qual nos liga a pessoas e não a coisas para sermos uma família de gente boa e simples, como Jesus ordenou.
O Caminho não é a fé, o Caminho é Cristo!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A Lógica Como Atributo de Deus e "Deus" como Atributo da Lógica: uma reflexão cristocêntrica

 Para ler as Escrituras considerando o que esta diz acerca de JESUS (Ele é a PALAVRA de DEUS), é preciso desvencilhar-se da concepção moralizante de causalidade do senso comum. A ideia de senso comum a respeito de causalidade tende a admitir que um único acontecimento (a causa) sempre provoca outro acontecimento único (o efeito). Por exemplo: 

                             


Todo pecado implica castigo
Jó está sendo castigado
Logo, Jó pecou.


Entretanto, não é preciso ser um cientista moderno para perceber  a multiplicidade de condições determinantes que, reunidas, tornam provável a ocorrência de determinados acontecimentos. 
Tanto a leitura cristocêntrica quanto a leitura moralizante procuram descobrir condições necessárias e suficientes para a ocorrência de um acontecimento na Bíblia. 


Todavia, enquanto a leitura moralizante leva o Lei-tor a esperar que um único fator possa dar a explicação completa; a leitura ou interpretação cristocêntrica, raramente - ou melhor  - nunca apressa-se em procurar um único fator ou condição que seja necessária e suficiente para provocar um acontecimento. 


Ao contrário, está interessada em condições contribuintes, condições contingentes, condições alternativas – todas as quais espera ver como atuantes a fim de tornar provável, mas não certa, a ocorrência do acontecimento. 


Em perspectiva cristocêntrica (que põe Jesus Cristo como o "Arqué" absoluto da interpretação bíblica), não podemos ler as Escrituras como se realizássemos uma atividade puramente lógica, ou seja, não devemos transplantar para o mundo das narrativas e contextos bíblicos, a lógica formal, sob o pretexto de que “a” lógica é um “atributo” de Deus. Se assim fizermos, leremos a Bíblia inventando um “Deus” como atributo da lógica, a qual julgamos ser a única existente e válida.


Entretanto, Deus se revela a nós em Jesus. Isto significa que Ele entra pela porta do nosso coração e "faz a nossa cabeça" para sempre. 


Ele é o Logos que nos fala e nós reconhecemos a sua voz e o seguimos.


Nele reside todos os tesouros da sabedoria.


O Caminho não é lógica, o Caminho é Cristo!

sábado, 22 de janeiro de 2011

JESUS: o único mediador entre nós


A Bíblia diz que Jesus é o único mediador entre Deus e os homens. Não seria ele também o único mediador entre os homens?
Se Jesus se dispusesse a ser o elo de ligação entre Deus e os homens e não pudesse reconciliar os homens entre si, certamente sua obra não estaria consumada, ficaria inacabada e não passaria de um arremedo de plano salvífico.
Todavia, ao reconciliar o homem com Deus, Jesus tornou possível a reconciliação dos homens entre si, e dos homens consigo mesmos.
Sim, porque  a reconciliação é bi-direcional, ela acontece em duas perspectivas: a vertical e a horizontal. Reconciliando-se com Deus, o homem reconcilia-se consigo mesmo e com seu próximo.Daí porque o apóstolo João intui acertadamente que não se pode afirmar que ama-se a Deus, a quem não se vê, sem que, no ato mesmo de amar a Deus, não se esteja já amando a seu irmão, a quem se vê.
A questão, contudo, é que o papel mediador de Jesus, viabiliza a iniciativa de Deus em nos reconciliar a Ele, mas, por seu amor libertador, nos deixa livre para responder subjetivamente, ao seu convite objetivo.
Sim, Deus estava mesmo em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões.Mas, cabe a nós aceitar tal reconciliação, responder a ela positivamente, o que só ocorre pela manifestação histórica e concreta da reconciliação do homem consigo mesmo, com a Criação e com os demais seres humanos.
É por isso que é tão importante compreender o papel mediador de Jesus nesse processo; sem Ele não só Deus não se reconciliaria conosco, como nós seríamos eternas vítimas do nosso próprio auto-engano, tentando, pela nossa tão breve existência, reconciliar-nos com Deus, a quem não vemos, mediante as nossas obras e tentando também convencer-nos uns aos outros de que poderíamos viver em eterno clima de hostilidade e inimizade mútuas, sem que Deus tivesse nada a fazer sobre isto.
Todavia, tendo Jesus como mediador e mestre a ser seguido, podemos, como o Pai, tomar a iniciativa de nos reconciliar com o nosso próximo, com nós mesmos e com a natureza, deixando, porém, o outro livre para responder ao nosso apelo à paz.
Entre a mulher adúltera e os homens que queriam apedrejá-la, Jesus interveio como o mediador, e naquele momento, a verdadeira ponte da amizade, se estabeleceu, objetivamente. Mas era necessário que os acusadores renunciassem as pedras. As sua obras de santidade e justiça, matá-la-iam, não fosse Jesus, o único mediador.
Com a mulher samaritana, se dera o mesmo. "Como falas a mim, sendo tu, judeu?" Jesus era a possibilidade objetiva, concreta de união entre samaritamos e judeus. Se tirarmos nós os olhos de Jesus, se o tirarmos da cena, só sobra os discípulos de Jesus e a própria samaritana, separados por suas barreiras religiosas e culturais, emparedados por seus montes e templos de preconceitos e arrogância. Mas, pondo os olhos sobre Jesus, vemos a samaritana e os próprios discípulos de Jesus, perplexos e assombrados com Aquele que ousava transformar as barreiras em pontes de amizade.
Certa vez, Tiago e João tiveram a petulância  de perguntar a Jesus se este queria que eles orassem para fazer descer fogo do céu para destruir os samaritanos. Mas eles não eram  discípulos, que já conheciam  Jesus " de andar com Ele"? Por que tanto ódio e desprezo pelos pecadores?
Porque ainda não tinham Jesus como o único mediador que une perfeitamente as pessoas; porque tinham a "performance" de cristão, mas não o Espírito de Cristo, que é o vínculo da paz; porque não haviam entendido que "o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los".
Foi assim também com a mulher que ungiu Jesus. Ela fez uma boa ação, mas os discípulos não viram assim, antes, a repreenderam e a  perturbaram, sendo necessário que Jesus se colocasse, mais uma vez, entre a mulher e aqueles homens a fim de que a deixassem em paz.
Jesus é o caminho que me conduz delicadamente ao outro, ainda que o outro se perceba infinitamente afastado de mim. No entanto, nossa consciência de reconciliado descansa no fato de que já não há quem nos possa impedir de andarmos por sobre os muros como se fossem pontes, se, de fato, nós respondemos subjetivamente, à sua objetiva reconcilação.
O caminho não é barreira, o Caminho é Cristo!

sábado, 23 de outubro de 2010

QUE ME FALTA AINDA?

“E eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. E ele lhe perguntou: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades” (Mateus 19. 16-22).

Ler as Escrituras a partir Dele, que é a Palavra,  faz toda a diferença para quem simplesmente deseja caminhar e, caminhando, seguir Àquele que veio revelar a Si mesmo e não inaugurar um novo sistema de moralidade ou tornar-se meramente um elemento a mais dentro de um sistema teológico ou uma cosmovisão.
Jesus é o Evangelho e o Evangelho é inteiramente cristocêntrico.
Dessa perspectiva cristocêntrica, posso ler a passagem acima para buscar o que o Mestre quer me ensinar, algo que eu possa aplicar no meu hoje existencial sem as pretensões de que assim fazendo possa  "alcançar a vida eterna", mas tão somente compreender o que me falta ainda...!

Assim,  me chama a atenção , inicialmente, o fato de que o jovem pergunta a Jesus  o que  deve fazer  para alcançar a vida eterna. Jesus parece entrar no jogo antropocêntrico e moralizante do jovem rico, respondendo a ele no mesmo nível - uma resposta religiosa e moral lhe é dada: "guarda os mandamentos"! Mas não a dá, sem antes apresentar-se como Aquele que veio revelar a Si mesmo, e por isso, Aquele é o Verbo que estava no princípio com Deus e que era Deus . Portanto Jesus precede a toda noção humana advinda da Queda inicial pela tomada do fruto do conhecimento do bem e do mal. Jesus abre uma brecha na dimensão moralizante do diálogo e pergunta-lhe: Por que me perguntas acerca do que é bom?
O jovem ignorava que seu olhar cindido pelo pecado  não o permitia enxergar o que lhe era essencial, mas tão somente aquelas coisas que poderia  fazer  (como fez Adão ao lançar mão do fruto e comê-lo) e saber ( como fez Eva ao desejar comer do fruto para obter conhecimento do bem e do mal). Abriram-se-lhes os olhos e viram que estavam nus. Pois já não enxergavam  mais o essencial: Bom só existe um.
Barth (2009, p. 433) diz: "O próprio Filho de Deus é Jesus Cristo. Trata-se da existencialidade de Deus, elucidada na sua unicidade com Cristo." (Cf. Rm 8:3-4). Somente quando Jesus Cristo age posso saber o que é bom, não o que agrada aos meus sentidos, ou o que está conforme os meus critérios.
O jovem rico expressa este olhar caído de quem vendo, não enxerga senão a possibilidade de desejar algo de bom, contudo, sem enxergar e sem saber que não há nada de bom ou de mal que possa fazer para alcançar  o que já está eternamente  estabelecido: quem tem o Filho tem a vida, quem não tem o Filho não tem a vida.

Mas duas características são atribuídas ao jovem nesta passagem, que nos intrigam bastante:


Primeira, o jovem era rico. A segunda, o jovem era religioso. Duas características que expressam a "grande maçã" da nossa época:
1. Riqueza material
2. Riqueza espiritual

Nunca se vendeu tanto estas maçãs: a possibilidade de ter e a possibilidade de ser. Já não nos basta apenas ter, queremos também ser. Queremos ser ricos, mas queremos também nos sentir culpados um pouco e, por isso, compramos alguma religião, ou fazemos uma mescla de várias, aprendemos a repetir alguns ritos, tornamo-nos cada vez mais solidários e caridosos, fazedores de Ong´s, dizimistas fiéis, etc.; queremos mostrar o quanto somos moral e espiritualmente evoluídos: " tudo isso tenho observado", disse o jovem.
Eu penso em mim.

Quantas vezes eu não me acho mais piedoso que o meu irmão? Por que falo mais manso, por que jejuo, porque pareço triste demais ou feliz demais  a maior parte do tempo?
Quantas vezes não acho que o que faço é muito mais genuíno e legítimo e verdadeiro que as experiências do outro?
Quantas vezes eu não me vejo como sendo o único que não dobrou os joelhos para Baal?
Quantas vezes não me considero aquele que faz tudo para alcançar a vida eterna, apesar do que afirmo saber/crer?
Quantas vezes, não me sinto "orgulhoso" por ser tão "humilde",por saber menos, por falar menos, por ser menos ouvido, ocultando de todas as formas que adoro a sensação de ser tão  "servo inútil" para Deus?

O jovem rico representa a Religião enquanto a mais subilime possibilidade humana, mas ainda assim, terrena, inacabada e caída performance humana!
Por isso, sendo tão rico (materialmente e moralmente) ele se sente profundamente vazio e inacabado: Que me falta ainda?
A esse respeito, escreve Barth (2009, p. 426):


A religião em nada pode modificar o fato de que tudo que o homem faz neste mundo, ele o faz sem Deus; ela pode apenas desnudar e expor a absoluta ausência de Deus porquanto a religião é determinado modo de ser, ter, e agir do homem segundo a carne. A religião participa da confusão e da mundanalidade [sic] inerente a tudo o que é humano. A religião é a expressão da mais alta possibilidade do ser humano e, mais do que isso, ela constitui a auto-realização da criatura em toda sua plenitude, todavia, a religião não faz com que a pessoa vença a si mesma, nem a transforma em nova criatura. [grifo nosso].

E mais: "É realmente lamentável quando dos alcandores da religião se irradia apenas religiosidade! Ela não liberta, mas aprisiona - e prende mais terrivelmente que qualquer outra coisa." (idem, idem).

O texto diz que Jesus, ofereceu ao jovem a possibilidade de se desvencilhar de suas "terrenidades", e que a tal convite, o jovem respondeu, retirando-se triste, talvez porque voltara para aquelas coisas: suas propriedades e sua religiosidade, que, conquanto lhe parecessem valiosas, não o preenchia plenamente.

A pergunta inicial do jovem rico é a pergunta do velho homem, do homo religiosus, do bem-intencionado moralista, mas é a terceira pergunta que o pode libertar da ilusão do paraíso perdido, não por achar-se já nele, mas por ser feita Àquele que é o único que poderia lhe dizer: "Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso," a despeito de tudo que tenha feito, e não por causa do que pode "fazer para alcançar a vida eterna".
O Caminho não é o meu caminhar, o Caminho é Cristo!