segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O AZORRAGUE DA GRAÇA

O azorrague da Graça está tão evidente no meio do  povo que tal movimento por mais manso e suave que seja, só pode ser notado como vara sobre os insensatos, pois, muitas vezes,  nossas obras são a negação total e definitiva de tudo que Jesus Cristo é e contra tudo que ensinou que fôssemos Nele para a glória do Seu Pai. Por isso dizemos: Deus está nos castigando! 
Mas podemos chamar a Graça pelo nome, e deixarmo-nos ser ensinados por ela. Ou, ao revés, a sentiremos como castigo merecido pelos erros sabidamente cometidos e acerca dos quais ele diz: "Não me lembro mais!"

Viver olhando para Jesus é a melhor maneira de ler as Escrituras. É o melhor método de interpretação bíblica e de leitura do mundo à minha volta. Ler a Palavra para ler o mundo não me faz odiar o mundo e as pessoas, mas amar o que no mundo há que revela e glorifica a Deus.  
Santidade, Justiça e Amor eu vejo quando, insatisfeito com o somente admirá-lo, ou seja, olhá-lo de longe,  eu sigo a Jesus e o vejo em ação pelos quatro Evangelhos e para muito além deles. Mas será que posso olhar assim sem, imediatamente tratá-lo - ainda que inconscientemente - como um CÓDIGO PENAL que deve ser lido pelos seus intérpretes e exímios exegetas, buscando no dia-a-dia aqueles casos particulares que devem ser submetidos ao "império das normas"? Será que tal olhar pode "promover a justiça"? Ou melhor: será que tal olhar faz jus ao olhar de Jesus, o Justo Réu, de quem o Justo Juiz é também Pai que Ama?
Ora, Jesus quer que nossos olhos sejam bons, que vejam o que está além da justiça.
Enquanto caminho, carrego a expectativa de que não serei apenas alguém que dá assentimento moral a tudo que Jesus ensinou para que fizéssemos o caminho do discípulo livre das cangas da cultura caída que nossa sociedade criou com nossa ajuda, mas alguém capaz de assumir os riscos de apenas caminhar e crer Nele como PESSOA e não como CÓDIGO PENAL, sem enfatizar o que no mundo há de errado, mas o que de bom há no novo mundo que se presentifica no meu hoje, pelas minhas ações de Graça!

O homem criado à imagem e semelhança de Deus deve ser o objeto de meu olhar e de meu amor que, olhando amorosamente, intervém no mundo não para  conformar-se a ele e/ou reproduzi-lo, mas para transformá-lo radicalmente e ressignificá-lo todos os dias, pois assim como diariamente nasce e se põe o sol sobre bons e maus, da mesma maneira devem labutar os filhos do Deus que trabalha até agora!
Quem não crer assim, embora livre para crer de outro modo, não poderá, contudo, dizer que experimenta a Graça de Deus, senão como “tolerância”, isto é, como suspensão temporária da  negação do outro. Uma tal Graça não tem graça nenhuma, não tem gosto e nem traz prazer e paz à alma. Não é assim entre os cidadãos do Reino dos Céus.

O reino de Deus é a pessoa de Jesus em nosso meio e sua influência  no nosso coração, na vida e na história humana mediante a intervenção e invenção de novos costumes, de uma nova sociabilidade baseada no amor como princípio fundamental e como garantia de consolidação do reino de Deus a partir desta vida terrena. 

Destarte, quando se cria templos não se está ampliando o Reino de Deus na Terra, está–se ampliando o limite de crédito e o saldo de contas bancárias milionárias e reproduzindo um fenômeno humano chamado "cristianismo", nada mais!
O reino de Deus é um reino de consciências e relacionamentos que se historicizam quando ajudo alguém, quando amo, quando me compadeço das dores do mundo, quando de graça dou o que de graça recebi. 

No reino de Deus, eis que há um maior que o Templo, maior que a Bíblia, maior que os ritos e cerimônias, maior que a moral e a religião, e maior que todos os covardes da terra que concordam com tudo que a respeito dele consta nas Escrituras, mas não se rendem jamais às implicações práticas daquilo em que dizem  crer e, por isso, continuam adorando a Deus e a Jesus, mas sem abrir mão das vantagens do mercadejamento da Palavra, razão por que a Graça misericordiosa de Deus lhes chega como azorrague!

A mensagem de Jesus, o qual é a Boa Notícia, está também misturada aos sermões, está dentro dos templos onde se vende o suposto gerenciamento do poder e das bênçãos de Deus. Está na cultura evangélica, cantada em verso e prosa, propagandeada por todas as mídias e oferecida até por R$1,99 como graça barata, mas nunca gratuita e espontaneamente! Contudo, estando aí, não poderia aí encerrar-se, pois ela permeia todo o Universo em amor criado.

 Todavia, pela presunção desses odres opressivos que só visam trancafiá-la e oprimi-la é que a Graça implodirá todas as amarras, todas as paredes e todas as barreiras artificialmente criadas. Quando esta hora chegar – e já chegou para mim – não sobrará pedra sobre pedra e nem sequer murinhos de lamentações!
Admitindo que o Evangelho me foi apresentado em meio a tantos ensinos, regras e crenças completamente estranhas a Ele e que o torna uma carga pesada demais para eu carregar, chego, por fim, a  concluir que, na cruz, entretanto, só havia Jesus. Sua obra foi suficiente para que Deus reconciliasse consigo o mundo! 

Não podemos pôr penduricalhos na cruz. Não podemos “aperfeiçoar” o sacrifício perfeito do Cordeiro! Aceitar esta escandalosa verdade não me fará ser um escravo do pecado. Ao revés, irá libertar-me não só do pecado, mas também da religião, do legalismo, das relações de poder, do medo de Deus e do diabo e de mim mesmo, fazendo exsurgir um ser que caminha juntamente com seus amigos e irmãos em direção ao Pai.
Hoje é o meu dia!

  Há momentos em que peço a Deus para que Sua Graça se derrame sobre mim como bálsamo e como óleo sobre minha cabeça, que eu não a sinta como azorrague, como ira divina, como fez Caim: 

"Então disse Caim ao SENHOR: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo". 

Porém, aquele castigo de que falava Caim, não vinha da parte de Deus mas era o resultado interior do que ele, exteriormente, havia realizado: matar o próprio irmão!
Todavia, o "castigo" do SENHOR para Caim foi este: "E pôs o SENHOR um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse." (Gênesis 4:15). 

Cristãos católicos e protestantes já utilizaram esta passagem do Gênesis (entre outras) para legitimar a escravidão e a discriminação de homens negros por brancos (eles mesmos, claro!) . E muitos negros foram marcados na pele e na alma, não com lindas tatuagens, mas com ferros de ferroar bois, além de tantas outras marcas de tortura e perversidade santa!
 Este é o senso estético e ético que eles ( a religião cristã)  pensam ser o  de Jesus: Ferroar pode, tatuar não! 

Se me  for impossível suportar o bem como bem e se eu não puder ser ensinado (marcado com um sinal) pela Graça; e se, ainda, me for imoral enxergar a linda tatuagem da  graça na  minha pele ou na de outrem... 
Permitirei, ao menos, ser açoitado por aquele que me ama. Deixarei que o amor de Deus me constranja, pois melhor coisa é cair nas mãos do Todo-poderoso que nas mãos dos homens. 

Depois, levantar-me-ei e, já curado de minhas feridas, como o servo Jó direi : Antes eu Te conhecia de ouvir falar, mas agora, de andar contigo! Eis o caminho do discípulo!

Adico,

Aracaju, 14 de fevereiro de 2010

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