sábado, 23 de outubro de 2010

QUE ME FALTA AINDA?

“E eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. E ele lhe perguntou: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades” (Mateus 19. 16-22).

Ler as Escrituras a partir Dele, que é a Palavra,  faz toda a diferença para quem simplesmente deseja caminhar e, caminhando, seguir Àquele que veio revelar a Si mesmo e não inaugurar um novo sistema de moralidade ou tornar-se meramente um elemento a mais dentro de um sistema teológico ou uma cosmovisão.
Jesus é o Evangelho e o Evangelho é inteiramente cristocêntrico.
Dessa perspectiva cristocêntrica, posso ler a passagem acima para buscar o que o Mestre quer me ensinar, algo que eu possa aplicar no meu hoje existencial sem as pretensões de que assim fazendo possa  "alcançar a vida eterna", mas tão somente compreender o que me falta ainda...!

Assim,  me chama a atenção , inicialmente, o fato de que o jovem pergunta a Jesus  o que  deve fazer  para alcançar a vida eterna. Jesus parece entrar no jogo antropocêntrico e moralizante do jovem rico, respondendo a ele no mesmo nível - uma resposta religiosa e moral lhe é dada: "guarda os mandamentos"! Mas não a dá, sem antes apresentar-se como Aquele que veio revelar a Si mesmo, e por isso, Aquele é o Verbo que estava no princípio com Deus e que era Deus . Portanto Jesus precede a toda noção humana advinda da Queda inicial pela tomada do fruto do conhecimento do bem e do mal. Jesus abre uma brecha na dimensão moralizante do diálogo e pergunta-lhe: Por que me perguntas acerca do que é bom?
O jovem ignorava que seu olhar cindido pelo pecado  não o permitia enxergar o que lhe era essencial, mas tão somente aquelas coisas que poderia  fazer  (como fez Adão ao lançar mão do fruto e comê-lo) e saber ( como fez Eva ao desejar comer do fruto para obter conhecimento do bem e do mal). Abriram-se-lhes os olhos e viram que estavam nus. Pois já não enxergavam  mais o essencial: Bom só existe um.
Barth (2009, p. 433) diz: "O próprio Filho de Deus é Jesus Cristo. Trata-se da existencialidade de Deus, elucidada na sua unicidade com Cristo." (Cf. Rm 8:3-4). Somente quando Jesus Cristo age posso saber o que é bom, não o que agrada aos meus sentidos, ou o que está conforme os meus critérios.
O jovem rico expressa este olhar caído de quem vendo, não enxerga senão a possibilidade de desejar algo de bom, contudo, sem enxergar e sem saber que não há nada de bom ou de mal que possa fazer para alcançar  o que já está eternamente  estabelecido: quem tem o Filho tem a vida, quem não tem o Filho não tem a vida.

Mas duas características são atribuídas ao jovem nesta passagem, que nos intrigam bastante:


Primeira, o jovem era rico. A segunda, o jovem era religioso. Duas características que expressam a "grande maçã" da nossa época:
1. Riqueza material
2. Riqueza espiritual

Nunca se vendeu tanto estas maçãs: a possibilidade de ter e a possibilidade de ser. Já não nos basta apenas ter, queremos também ser. Queremos ser ricos, mas queremos também nos sentir culpados um pouco e, por isso, compramos alguma religião, ou fazemos uma mescla de várias, aprendemos a repetir alguns ritos, tornamo-nos cada vez mais solidários e caridosos, fazedores de Ong´s, dizimistas fiéis, etc.; queremos mostrar o quanto somos moral e espiritualmente evoluídos: " tudo isso tenho observado", disse o jovem.
Eu penso em mim.

Quantas vezes eu não me acho mais piedoso que o meu irmão? Por que falo mais manso, por que jejuo, porque pareço triste demais ou feliz demais  a maior parte do tempo?
Quantas vezes não acho que o que faço é muito mais genuíno e legítimo e verdadeiro que as experiências do outro?
Quantas vezes eu não me vejo como sendo o único que não dobrou os joelhos para Baal?
Quantas vezes não me considero aquele que faz tudo para alcançar a vida eterna, apesar do que afirmo saber/crer?
Quantas vezes, não me sinto "orgulhoso" por ser tão "humilde",por saber menos, por falar menos, por ser menos ouvido, ocultando de todas as formas que adoro a sensação de ser tão  "servo inútil" para Deus?

O jovem rico representa a Religião enquanto a mais subilime possibilidade humana, mas ainda assim, terrena, inacabada e caída performance humana!
Por isso, sendo tão rico (materialmente e moralmente) ele se sente profundamente vazio e inacabado: Que me falta ainda?
A esse respeito, escreve Barth (2009, p. 426):


A religião em nada pode modificar o fato de que tudo que o homem faz neste mundo, ele o faz sem Deus; ela pode apenas desnudar e expor a absoluta ausência de Deus porquanto a religião é determinado modo de ser, ter, e agir do homem segundo a carne. A religião participa da confusão e da mundanalidade [sic] inerente a tudo o que é humano. A religião é a expressão da mais alta possibilidade do ser humano e, mais do que isso, ela constitui a auto-realização da criatura em toda sua plenitude, todavia, a religião não faz com que a pessoa vença a si mesma, nem a transforma em nova criatura. [grifo nosso].

E mais: "É realmente lamentável quando dos alcandores da religião se irradia apenas religiosidade! Ela não liberta, mas aprisiona - e prende mais terrivelmente que qualquer outra coisa." (idem, idem).

O texto diz que Jesus, ofereceu ao jovem a possibilidade de se desvencilhar de suas "terrenidades", e que a tal convite, o jovem respondeu, retirando-se triste, talvez porque voltara para aquelas coisas: suas propriedades e sua religiosidade, que, conquanto lhe parecessem valiosas, não o preenchia plenamente.

A pergunta inicial do jovem rico é a pergunta do velho homem, do homo religiosus, do bem-intencionado moralista, mas é a terceira pergunta que o pode libertar da ilusão do paraíso perdido, não por achar-se já nele, mas por ser feita Àquele que é o único que poderia lhe dizer: "Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso," a despeito de tudo que tenha feito, e não por causa do que pode "fazer para alcançar a vida eterna".
O Caminho não é o meu caminhar, o Caminho é Cristo!






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